* Léo Castanheira é micro-empresário e nos conta sua experiência na tentativa de conseguir o empréstimo do Governo para manter seu negócio vivo na pandemia


O Brasil não é para amadores, e isso já sabemos há algum tempo. Mas este ano as coisas tomaram uma proporção diferente, com a pandemia atingindo em cheio a todos.

Mesmo para quem trabalha com e-commerce, como é meu caso, a queda nas vendas foi absurda em março e abril, começando a mostrar discretos sinais de recuperação em maio.

Nesses dois meses, os clientes sumiram, mas as contas continuaram vindo, com tudo, o que fez as dívidas irem se acumulando e se acumulando.

Por esta razão, quando o Congresso aprovou uma ajuda emergencial para micros e pequenos empresários, em abril, a esperança voltou. Era a tábua de salvação que minha empresa precisava. Afinal, com um respiro nas contas, seria possível retomar as atividades, comprar mais produtos para gerar mais vendas e fazer a economia voltar a girar.

Mas tudo, tudo nesse país é mais difícil, e a ideia salvadora, que saiu do Senado no final de abril, ficou semanas na mesa do Executivo, esperando sabe-se lá o que.

Na segunda metade de maio, quando finalmente a MP foi publicada, parecia que teríamos o tão esperado alívio dos fardos. Mas a visível má vontade de diversos elementos parecia atravancar tudo. Tudo parecia apenas teoria, para os políticos se vangloriarem de como eles estavam ajudando o povo.

Nossa empresa estava no limite, a um passo de não ter mais como honrar suas dívidas, logo nós que sempre nos orgulhamos de manter todas as contas em dia.

O Itaú era o único que nos oferecia ajuda. Mas do jeito dele: ele emprestava R$ 35.000 e a gente devolvia R$ 70.000 em 36 meses. Era ajudar a empresa agora, mas comprometer os meses futuros dela.

O plano D (de “desespero”) era de aguardar a tal ajuda do Governo até final de maio. Se passasse disso e ela não viesse, quebraríamos ou então apelaríamos para a corda no pescoço que o Itaú oferecia.

Dinheiro-Reais Pronampe: a difícil saga de correr atrás da sobrevivência

No dia 1º de junho contratamos o Giro PJ do Itaú, com juros a 3,50% ao mês. Era a única alternativa que tínhamos para não quebrarmos de vez. E de lambuja, descobrimos que o banco ainda cobrava uma taxa extra de abertura de contrato, de 2,9%. Foram R$ 980 limpos, de graça, para os cofres do maior banco privado do país. Valeu, Governo.

Mas essa ajuda foi um alívio, apesar de bem cara. Conseguimos quitar dívidas e comprar novos produtos para dar um ânimo na nossa loja online. Os clientes começaram a ver que não estávamos mortos e voltaram a comprar, fazendo o faturamento ser o melhor desde fevereiro. Uma nova vida em tempos de calamidade pública.

Um mês se passou e nada de Pronampe. Na primeira semana de julho, as notícias começaram a aparecer. A Caixa foi a primeira a oferecer o empréstimo, mas era preciso preencher um formulário e esperar. Foi o que fiz.

Uma semana depois me ligaram, fizeram uma pequena entrevista e me disseram que me enviariam um e-mail solicitando os documentos. Só depois de mais uma semana é que recebi o tal e-mail, o qual respondi na hora, com tudo o que eles pediam. Mas a espera continuou.

Neste meio tempo, o Banco do Brasil também começou a oferecer o recurso. Mas para quem não tem conta, eles pedem para ir até uma agência abrir, para DEPOIS dizer se você poderá ter acesso ao crédito ou não. Em tempos de pandemia, é um risco considerável por um resultado não tão garantido.

Ainda enquanto esperava a resposta da Caixa, o Itaú liberou também o Pronampe, em uma quinta-feira. Mas passadas 24h, 70% do limite que eles tinham para emprestar já tinha sido distribuído. Tiveram que pausar o recurso alegando que precisavam ajustar o TI, e que a opção voltaria ao ar na segunda-feira, às 8h da manhã, apenas no aplicativo de celular.

erro1 Pronampe: a difícil saga de correr atrás da sobrevivência

Três dias avisando para todos que o recurso voltaria em uma determinada hora. O que você imagina que poderia acontecer?

Isso mesmo, era meio óbvio que no horário marcado, milhares de pequenos e micro-empresários no Brasil inteiro iriam acessar ao mesmo tempo o aplicativo do banco.

Eu e minha sócia já estávamos dentro do aplicativo às 7h20, cada um com um celular, aguardando o horário para o menu do empréstimo aparecer. Enquanto isso, líamos na internet que Banco do Brasil e Caixa já tinham esgotado seus limites, e que só restava 30% do Itaú.

Quem não conseguisse naquele dia, dificilmente conseguiria em outro momento.

Vou resumir essa parte para não ficar chata. Claro que o aplicativo ficou instável o tempo todo e foram 30 minutos de muito martírio, stress e sofrimento. E no fim só conseguimos porque a minha sócia estava tentando também no celular dela (porque o meu não entrava no app de jeito nenhum). Se fosse em um celular só, ficaríamos de fora.

Assim que o crédito foi aprovado, o dinheiro já caiu na conta. Fui para a internet e comecei a ver o pessoal reclamando que o Itaú já havia esgotado seu limite também, em meia-hora. Aparentemente fomos uns dos últimos a conseguir o crédito pelo Itaú.

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Foram 2 meses e meio, desde a aprovação no Congresso até o dinheiro chegar finalmente até nós. Considero que somos privilegiados por termos conseguido aguentar tanto tempo sem quebrar, pois vemos que muitas outras empresas não tiveram a mesma sorte, infelizmente.

É duro ver bancos lucrando na crise, enquanto você se arrebenta para não quebrar. É duro ver que sua empresa paga milhares de reais todos os anos de impostos, mas quando ela precisa, a ajuda demora. É duro ver tantos empresários não tendo a mesma sorte que você e ficarem de fora de uma ajuda que seria a tábua de salvação deles.

É duro. Realmente o Brasil não é para amadores.

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